Sete em cada dez líderes de instituições de ensino públicas (71,7%) enfrentam dificuldades ao comunicar no meio educacional sobre a resistência às violências, como bullying, racismo e preconceito contra pessoas com deficiência (capacitismo).
Esse se caracteriza como o maior obstáculo identificado por um estudo sobre clima na escola realizado com 136 líderes de 105 instituições de ensino públicas, sendo 59 municipais e 46 estaduais.
A análise, tornada pública nesta quarta-feira (6), foi conduzida pela Fundação Carlos Chagas (FCC), uma organização sem fins lucrativos, em colaboração com o Ministério da Educação (MEC).
O intuito da pesquisa é coletar dados para embasar o novo Manual de Clima Escolar Positivo para Equipes Administrativas, uma iniciativa do governo federal, que será lançado nesta quinta-feira (7), por meio do canal de YouTube do MEC.
Ambiente contra atos violentos
Encarregado do estudo, o pesquisador Adriano Moro, do Departamento de Estudos Educacionais da FCC, considera que enfrentar situações de violência se mostra como uma questão complicada que demanda preparo, apoio e estratégias cuidadosamente planejadas.
Uma dificuldade específica apontada por ele é a aceitação natural da violência.
“Em certos casos, membros adultos da escola percebem agressões como ‘brincadeiras’. Esta percepção reduz a seriedade das situações e pode conduzir à omissão, justamente no momento em que os estudantes mais necessitam de suporte e intervenção”, menciona em entrevista à Agência Brasil.
O pesquisador ainda coloca em contexto que diversas escolas estão inseridas em ambientes marcados por violência “além de seus muros”. Além disso, complementa, “existe complexidade em envolver as famílias e a comunidade, o que intensifica a pressão sobre a instituição de ensino para lidar de forma isolada com esses desafios”.
Assédio moral
Adriano Moro também destaca que outra dificuldade diz respeito à utilização genérica do termo bullying.
“É um acontecimento com suas peculiaridades, trata-se de uma violência grave, necessitando de atenção. No entanto, ao não ser denominada corretamente, a violência experimentada acaba dissimulando problemas específicos, como racismo, preconceito contra pessoas com deficiência, xenofobia ou violência de gênero.”
O bullying é uma expressão originária do idioma inglês e caracteriza uma forma de violência física ou psicológica, geralmente de maneira repetitiva, ocasionando danos físicos, sociais e emocionais ao aluno vítima. Um ou mais agressores utilizam xingamentos, apelidos depreciativos e outras formas de intimidação, humilhação, agressão ou discriminação.
Para o representante da FCC, um clima escolar positivo contribui diretamente para conter as violências, pois estabelece as condições para que a escola deixe de agir apenas reativamente e comece a atuar de maneira mais preventiva, intencional e colaborativa.
“Quando há confiança, respeito e escuta entre estudantes e adultos, torna-se mais fácil identificar problemas, denominar corretamente as violências e agir com mais responsabilidade e justiça”, salienta.
Outros achados
Buscando compreender como é a gestão do clima entre alunos, profissionais do ensino e famílias, a análise constatou que:
- 67,9% dos líderes entrevistados mencionam desafios na aproximação entre escola, famílias e comunidade;
- 64,1% apontam obstáculos na construção de vínculos saudáveis entre estudantes;
- 60,3% citam dificuldades para fomentar o sentimento de pertencimento dos alunos;
- 60,3% reconhecem dificuldades na relação estudantes-professores;
- 49% indicam desafios relacionados à promoção do sentimento de segurança entre os alunos.
Os pesquisadores investigaram como é a organização da instituição de ensino para alcançar um ambiente escolar positivo.
A pesquisa revela que mais da metade delas (54,8%) nunca efetuaram diagnóstico estruturado do clima escolar.
De acordo com os responsáveis pela pesquisa, o diagnóstico é uma “etapa fundamental para orientar políticas de convivência e aprendizagem”.
Também foi observado que mais de dois terços (67,6%) das instituições de ensino contam com equipe responsável por iniciativas de aprimoramento do clima escolar.
Nas 32,4% que não possuem tal equipe, as ações ficam sob responsabilidade direta da liderança.
Adriano Moro destaca que muitas escolas sofrem com sobrecarga dos profissionais.
“A administração escolar normalmente lida com múltiplas urgências simultaneamente”, aponta. Nesse sentido, as equipes atuam mais para solucionar problemáticas imediatas do que para preveni-las de maneira planejada.
Clima e ensino
O pesquisador enfatiza a relação “muito forte” entre clima escolar positivo e performance pedagógica.
Segundo ele, o ambiente nas escolas influencia diretamente tanto o bem-estar das pessoas quanto o processo de ensinar e aprender.
“Para que a aprendizagem ocorra com excelência e justiça, é crucial que os estudantes se sintam acolhidos”, afirma.
“Quando os estudantes se sentem respeitados e não temem errar, aprendem de maneira mais eficaz e desenvolvem suas competências com maior confiança”, sustenta.
Grupo de estudo
A pesquisa da FCC entrevistou escolas em dez estados: Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Sergipe e São Paulo, de março a julho de 2025.
A análise da FCC e do MEC é compartilhada na mesma semana em que o governo federal recriou grupo de estudo (GT) para embasar política de combate ao bullying e ao preconceito na educação.
O GT é composto por setores técnicos do MEC e tem prazo inicial de 120 dias para apresentar um relatório com as conclusões e propostas elaboradas.
Fonte: Agência Brasil
