A quantidade completa de alunos inscritos no ensino superior em todo o globo mais do que duplicou nas últimas duas décadas, aumentando de forma expressiva de 100 milhões em 2000 para 269 milhões em 2024. Este valor representa 43% da população em idade apropriada para frequentar o ensino superior, normalmente entre 18 e 24 anos.
Mesmo com esse crescimento, persistem grandes disparidades regionais, visto que enquanto 80% dos jovens da Europa Ocidental e América do Norte estão matriculados no ensino superior, essa proporção diminui para 59% na América Latina e no Caribe, 37% nos Estados Árabes, 30% no Sul e Oeste da Ásia e apenas 9% na África Subsaariana.
Estas informações foram trazidas pelo primeiro relatório mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) sobre padrões do ensino superior, divulgado em Paris nesta terça-feira (12). Este levantamento reúne dados de 146 nações diferentes.
As entidades privadas mantêm sua representatividade como um terço do total de matrículas mundialmente, tendo uma presença mais acentuada na América Latina e no Caribe (com 49% em 2023). Em países como Brasil, Chile, Coreia do Sul e Japão, quatro em cada cinco estudantes frequentam uma instituição privada de ensino superior. O relatório destaca que apenas um terço dos países regulamenta o ensino superior público como gratuito. A conclusão dos estudos não acompanhou o ritmo das matrículas. A média global de conclusão de cursos aumentou de 22%, em 2013, para 27%, em 2024.
Interesse
O diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, enfatizou que o novo relatório evidencia a crescente busca pelo ensino superior no mundo, “que desempenha um papel irreplaceável na construção de sociedades sustentáveis”. Ele observou, no entanto, que essa ampliação não garante oportunidades equitativas. Assim, há a urgência de modelos criativos de financiamento que garantam um ensino superior inclusivo e de alta qualidade.
Khaled El-Enany afirmou que a Unesco continuará apoiando os países na oferta de oportunidades de ensino superior de excelente qualidade para todas as pessoas, por meio de iniciativas cruciais como a Convenção Global sobre Educação Superior e o Passaporte de Qualificações.
Deslocação
No período estudado, a mobilidade internacional triplicou, saltando de 2,1 milhões em 2000 para quase 7,3 milhões de estudantes realizando seus cursos no exterior em 2024, sendo metade destes na Europa e América do Norte. Segundo a análise da Unesco, apesar do aumento quantitativo, somente 3% do total de estudantes no mundo se beneficia da mobilidade, apresentando grandes disparidades regionais.
Sete países – Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – ainda recebem metade de todos os estudantes internacionais. Por outro lado, nota-se que na última década países como Turquia e Emirados Árabes Unidos (EAU) têm atraído cada vez mais estudantes internacionais, com um crescimento de ao menos cinco vezes no número de alunos estrangeiros. Turquia e EAU estão se aproximando da França, de acordo com o estudo.
O relatório aponta que estudantes internacionais estão preferindo estudar cada vez mais em suas próprias regiões. Por exemplo, na América Latina e no Caribe, a proporção de mobilidade intrarregional aumentou de 24% para 43% entre 2000 e 2022, sendo a Argentina o principal destino. Estudantes dos Estados Árabes têm demonstrado interesse crescente nos países do Golfo e na Jordânia, sinalizando uma mudança significativa em relação à dominância da Europa Ocidental e América do Norte uma década antes.
A Unesco desempenha papel central na promoção da mobilidade internacional de estudantes por meio de sua Convenção Global sobre o Reconhecimento de Qualificações no Ensino Superior e seus instrumentos regionais equivalentes, já ratificados por 93 países.
A Convenção estabelece mecanismos justos e transparentes de reconhecimento de qualificações, bem como padrões universais de garantia da qualidade, reforçando a confiança nos diplomas e certificações do ensino superior em nível mundial.
Sexo
As mulheres ultrapassam os homens no âmbito global do ensino superior atualmente. Os dados revelam que em 2024, havia 114 mulheres matriculadas no ensino superior para cada 100 homens. A paridade de gênero foi alcançada em todas as regiões, exceto na África Subsaariana, onde as taxas de matrícula e conclusão dos cursos permanecem mais baixas.
O relatório indica avanços significativos na Ásia Central e no sul da Ásia. Das 68 mulheres matriculadas por 100 homens em 2000, as duas regiões alcançaram a paridade de gênero em 2023. No entanto, as mulheres ainda estão sub-representadas em níveis de doutorado e ocupam cerca de apenas um quarto das posições de liderança sênior no meio acadêmico.
A Unesco destacou que equidade, qualidade e financiamento continuam sendo desafios críticos para os estudantes do ensino superior mundial. Apenas um terço dos países implementou programas para promover o acesso de grupos sub-representados ao ensino superior. Algumas nações como África do Sul, Chile, Coreia do Sul, Filipinas, Itália, Japão, Maurício e México reduziram ou aboliram as taxas de ensino superior para grupos específicos.
Apesar do aumento no número de matrículas ter sido nove vezes, passando de 1% em 2019 para 9% em 2025, os refugiados ainda enfrentam grandes desafios para obter acesso ao ensino superior. Uma das principais barreiras é o reconhecimento de qualificações que frequentemente estão ausentes ou impossíveis de verificar, especialmente no Sul Global.
Certificado
A Unesco trabalha para lidar com esse desafio por meio do Passaporte de Qualificações. Esse recurso visa validar qualificações acadêmicas, profissionais e vocacionais de pessoas refugiadas e deslocadas. Atualmente, o Passaporte de Qualificações da Unesco está em implementação no Iraque, Quênia, Uganda, Zâmbia e Zimbábue, com planos de expansão. Centenas de candidatos já receberam esse documento.
O investimento governamental médio no ensino superior corresponde a cerca de 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) global. A Unesco observou que, ao mesmo tempo, a austeridade fiscal em diversas situações aumenta a pressão sobre as instituições de ensino superior, realçando a importância de modelos inovadores de financiamento para garantir um ensino superior inclusivo e de qualidade.
Outro dado significativo apontado pelo relatório é que embora as tecnologias digitais e inteligência artificial (IA) estejam alterando a educação e a aprendizagem, apenas uma entre cada cinco universidades possuía, em 2025, uma política formal sobre IA.
O relatório conclui que a rápida expansão do número de estudantes nas últimas décadas aumentou a pressão sobre os sistemas de ensino superior, deixando evidente a necessidade de garantir padrões de qualidade no ensino e, ao mesmo tempo, de ampliar o acesso de grupos menos favorecidos, por meio de financiamento equitativo e sustentável.
Fonte: Agência Brasil
